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COMENTÁRIOS DA LIÇÃO DA ESCOLA SABATINA

2º Trimestre de 2024 - O GRANDE CONFLITO


Lição 7 – Motivados pela esperança

Introdução

Conhecer o futuro e entender assuntos “obscuros” sempre foi algo que despertou interesse nas pessoas. A volta de Jesus é um dos acontecimentos com mais referências na Bíblia e, por conseguinte, sempre despertou a curiosidade entre os estudiosos da Bíblia. O livro de Daniel, que trata de eventos relacionados ao tempo do fim, foi alvo de estudos de muitas pessoas, especialmente de 1798 pra cá. Estaria revelado nesse livro, entre os símbolos e períodos descritos, o tempo do segundo aparecimento de Cristo?

I – O saber se multiplicará

“Quanto a você, Daniel, encerre as palavras e sele o livro, até o tempo do fim. Muitos correrão de um lado para outro, e o saber se multiplicará” (Dn 12:4).

Embora muitos leiam esse texto e o apliquem ao avanço da ciência e da tecnologia dos tempos modernos, não parece ser essa a interpretação primária mais condizente com o texto bíblico. É fato que o conhecimento e a ciência evoluíram assustadoramente nos últimos 200 anos (e como aplicação secundária, alguns aplicam essa interpretação), mas o texto de Daniel se refere ao conhecimento e esquadrinhamento das profecias relatadas anteriormente no próprio livro de Daniel. O anjo estava dizendo para Daniel que o conhecimento acerca das profecias descritas em seu livro seria compreendido no tempo do fim. Percebemos o cumprimento dessas palavras já desde Sir Isac Newton, um dos primeiros a estudar o livro de Daniel e tentar calcular os períodos ali mencionados. Entretanto, ele não foi o único. Pouco tempo depois, no Oriente Médio, Europa, América do Sul e América do Norte, homens passaram a estudar o livro de Daniel com afinco, entendendo que algo muito importante estava para acontecer.

As profecias preditas por Daniel, que deveriam ter seu cumprimento no tempo do fim, passaram a ser compreendidas justamente no período após 1798, quando, com a prisão do papa Pio VI, foi encerrado o período dos 1.260 anos de perseguição papal. Guilherme Miller, fazendeiro de Nova York, foi um dos principais expoentes das profecias do livro de Daniel, destacando-se tanto no estudo quanto na exposição do livro.

 

II – Guilherme Miller

Guilherme Miller, capitão deísta, após ser salvo miraculosamente, resolveu estudar a Bíblia verso por verso e se propôs a não avançar até que houvesse compreendido corretamente cada verso lido. Com apenas uma Bíblia e uma concordância bíblica, ele iniciou sua jornada pelas Escrituras Sagradas. Ao chegar no livro de Daniel, ele não conseguiu avançar. Eram muitos dados numéricos e informações proféticas importantes para ser ignoradas. Os capítulos 8 e 9, especialmente, lhe chamaram muito a atenção. Miller se debruçou sobre esses capítulos até compreender os períodos ali mencionados. O saber das profecias de Daniel estava se multiplicando.

Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 4, à página 970, falando sobre a expressão “o saber se multiplicará”, diz: “Esta frase deve ser considerada a sequência lógica da frase que a antecede: quando o livro selado for aberto, no tempo do fim, o conhecimento das verdades contidas nessas profecias aumentará (ver Profetas e Reis [CPB, 2021], p. 318; Ap 10:1, 2). No fim do século 18 e início do século 19, despertou-se um novo interesse pelas profecias de Daniel e Apocalipse em diferentes lugares do mundo. O estudo dessas profecias difundiu a crença de que o segundo advento de Cristo estava próximo. Vários estudiosos na Inglaterra, Joseph Wolff no Oriente Médio, Manuel Lacunza na América do Sul e Guilherme Miller nos Estados Unidos, junto com outros estudiosos das profecias, declararam, com base no estudo das profecias de Daniel, que o segundo advento estava prestes a ocorrer. Essa convicção se tornou a força motivadora de um movimento mundial.

“Essa profecia também foi interpretada como indício dos estupendos avanços da ciência e do conhecimento geral no século 19, avanços que tornaram possível uma proclamação extensa da mensagem dessas profecias.”

Sem nenhum meio tecnológico, tais como a internet, celulares, computadores, etc., sem ter contato um com o outro, é impressionante pensar que homens como Joseph Wolff no Oriente Médio, o padre Manuel Lacunza na América do Sul e Guilherme Miller nos Estados Unidos chegaram basicamente às mesmas compreensões quanto ao tempo predito em Daniel. Todos eles entenderam que algo estava para acontecer entre 1843 e 1844. Como o entendimento deles quanto à purificação do santuário estava equivocado, pois pensavam que a Terra seria o santuário e a purificação seria a destruição dela pelo fogo, eles entenderam que Jesus estava perto de voltar naquela época.

Guilherme Miller, notadamente, foi o mais conhecido a pregar essa mensagem, pois, sua pregação alcançou a América do Norte e causou grande impacto. Milhares de pessoas aderiram ao movimento milerita do advento. Muitos venderam suas propriedades e empregaram todos os recursos no que acreditavam ser a pregação final do evangelho ao mundo. Esperaram Cristo retornar em glória. O dia chegou, e Jesus não voltou.

 

III – O desapontamento

Não foi Guilherme Miller que estabeleceu o dia 22 de outubro de 1844 como a data para o aparecimento de Jesus. Ele havia predito que Jesus voltaria entre o verão de 1843 e 1844. Como isso não ocorreu, outro indivíduo, chamado Samuel Snow, refez os cálculos de Miller e, com base no calendário judaico caraíta, projetou pela primeira vez o dia 22 de outubro. Ao apresentar a Miller as suas descobertas, vendo a seriedade e precisão dos cálculos, Miller adotou aquela data. Miller passou então a pregar mais intensamente sobre o tema. Muitos que viram os cálculos se convenceram de exatidão dos mesmos e decidiram se juntar ao movimento. Homens com recursos sustentaram a obra de pregação por todo o território dos Estados Unidos. Assim, em pouco tempo, a América foi sacudida pela verdade de que Cristo estaria voltando em breve.

Muitos zombavam de Miller e de quem acreditava como ele. A pregação, no entanto, avançava com poder. O dia 22 de outubro chegou e Cristo não voltou. A zombaria foi extrema por parte dos incrédulos, mas a decepção daqueles que ansiosamente aguardavam a segunda vinda de Jesus foi incomensuravelmente maior. Onde erraram? Seria a Bíblia realmente um livro confiável? Por que Jesus não veio? O que fazer a partir de então, pois muitos haviam vendido tudo quanto tinham e agora estavam literalmente sem nada? As perguntas eram muitas e os sentimentos de vergonha e angústia muito profundos. Muitos perderam a fé, abandonaram a Palavra de Deus e a religião, enquanto outros continuaram esperando e marcando novas datas para o retorno de Cristo; outros, porém, buscaram entender melhor o que havia acontecido e chegaram à conclusão de que os cálculos estavam corretos, mas o evento é que estava errado: a purificação do santuário não seria o retorno de Cristo à Terra.

 

Conclusão

 

A volta de Jesus sempre foi o anelo de cada um que abraçou a Palavra de Deus como seu guia. Esse foi o sentimento dos discípulos, e não foi diferente com os reformadores. Essa foi igualmente a atitude de Guilherme Miller e seus seguidores. Eles aguardavam a vinda do Senhor. Porém, eles interpretaram a profecia de maneira errada: A data estava certa, mas o evento estava errado. Não seria a volta de Jesus. A decepção deles foi muito grande.

Algo similar havia acontecido dois mil anos antes, quando os discípulos esperaram que Jesus reinasse em Jerusalém e os libertasse do jugo romano. Agora, Cristo estava numa sepultura. Lucas relata esse momento: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel. Mas, depois de tudo isto, já estamos no terceiro dia desde que essas coisas aconteceram” (Lc 24:21). A decepção deles, por não terem compreendido corretamente as profecias, foi muito grande. No imaginário judaico, o Messias seria um libertador terreno que Se assentaria no trono de Davi e restauraria a glória de Israel. Não compreenderam que o Messias seria o Servo sofredor de Isaías 53. Por compreenderem erroneamente as profecias de Daniel, os mileritas passaram por uma decepção terrível. Assim como a ressurreição de Cristo deu ânimo e poder para os discípulos avançarem na pregação do evangelho, a compreensão do que ocorrera em 1844 deu ânimo para que um pequeno grupo de mileritas continuasse acreditando no breve retorno de Cristo e pregasse a mensagem apocalíptica que diz: “Temam a Deus e deem glória a ele, pois é chegada a hora em que ele vai julgar” (Ap 14:7).

Pastor Eleazar Domini