Leia: O ANO BÍBLICO com a bíblia NVI e a Meditação Matinal - Maranata, O Senhor Vem! - Ellen G.White

LIÇÃO DA ESCOLA SABATINA - TERCEIRO TRIMESTRE DE 2018

Lição 2: 7 a 14 de julho

O Pentecostes

Editor: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br
Revisora: Josiéli Nóbrega

Cristian Piazzetta
Capelão da Escola Adventista
Cachoeirinha, RS

Supervisor: Wilson Paroschi
Professor de Novo Testamento
Southern Adventist University
Collegedale, TN, EUA

Esboço da lição da semana

  1. A vinda do Espírito Santo (At 2:1-4)
  2. O dom de línguas (At 2:5-13)
  3. O sermão de Pedro (At 2:14-36)
  4. O primeiro batismo (At 2:37-41)

I. A vinda do Espírito Santo (At 2:1-4)

O tempo de espera havia acabado. Após seguir a orientação dada pelo próprio Jesus de aguardar em Jerusalém o poder prometido (1:4) os apóstolos estavam reunidos a fim de receber a unção do Espírito do Senhor que os habilitaria a testemunhar de Cristo. Embora Lucas tenha sido um pouco vago quanto à referência ao local, pode-se inferir que os discípulos estavam reunidos no mesmo cenáculo de Atos 1:13 (hyperoon), o qual não deve ser confundido com o local da Última Ceia de Lucas 22:11 (katalyma). Reunidos ali para celebrar a festa de Pentecostes, os discípulos foram surpreendidos com manifestações sobrenaturais que acompanharam o derramamento do Espírito Santo. A vinda do Espírito Divino é descrita em três declarações paralelas: (1) veio do céu um som, parecido com um vento impetuoso, que encheu toda a casa, (2) em seguida, apareceram línguas, parecidas com fogo, que pousaram sobre cada um deles, e (3) finalmente, todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas. A ênfase de Lucas está na objetividade do evento. Ele foi audível, visível e corpóreo. As imagens de vento e fogo eram parte do aparato utilizado por Deus em Suas manifestações (teofanias) nos tempos do Antigo Testamento (cf. 1Rs 19:11; Is 66:15). Certamente, o impacto desses símbolos estava em demonstrar que o próprio Deus estava ali presente e a tão aguardada promessa do derramamento do Espírito Santo era agora uma realidade (Jl 2:28-30; cf. Lc 3:16; Jo 14:16; 15:26; At 1:8).

II. O dom de línguas (At 2:5-13)

Os versos seguintes apresentam o resultado do derramemento do Espíriro Santo sobre aqueles que estavam no cenáculo: eles falaram em línguas. Embora falar outras línguas seja um dom espiritual legítimo, é importante ressaltar que ele é apenas uma dentre as mais diversas formas de o Espírito de Deus Se manifestar. Em 1 Coríntios 12, o apóstolo Paulo listou uma série de outros dons do Espírito Santo (v. 8-11), indicando que Sua manifestação “é concedida a cada um visando um fim proveitoso” (v. 7), ou seja, cada dom tem um propósito específico. Por que, então, a manifestação do Espírito Santo se deu na forma de línguas no dia de Pentecostes?

1. O porquê das línguas

O próprio contexto do episódio evidencia que o ato de falar em línguas no Pentecostes foi a capacitação necessária para que os apóstolos dessem início à missão mundial da igreja. Em outras palavras, se Jesus os havia comissionado para ser Suas testemunhas até os confins da Terra, era de suma importância que eles fossem capazes de comunicar o Evangelho na língua nativa dos ouvintes com os quais entrariam em contato. E isso aconteceu já no próprio dia de Pentecostes. Lucas foi enfático ao destacar a vasta quantidade de nações representadas em Jerusalém por ocasião da festividade judaica (v. 9-11). Tão ampla era a representatividade de povos ali que Lucas hiperbolizou ao dizer que ali havia judeus “vindos de todas as nações debaixo do céu” (v. 5). O fato é que, a fim de que o Evangelho fosse anunciado àquelas pessoas, a barreira linguística que separava os apóstolos delas precisava ser transposta. A habilidade linguística conferida aos apóstolos foi a intervenção divina para que a mensagem fosse anunciada. É notável o espanto daquelas pessoas quando perceberam como os discípulos podiam então falar em suas línguas maternas (v. 8) Embora já tenha sido sugerido que o milagre, na verdade, se deu no fato de as pessoas entenderem os discípulos, ou seja, uma capacitação especial para compreendê-los, o texto é claro ao indicar que foram os discípulos que receberam o Espírito Santo, não a multidão, logo a manifestação se deu neles. Outro ponto importante é o próprio fato de as pessoas terem ficado atônitas e perplexas ao ver os discípulos “falando” em suas línguas maternas” (v. 8), o que indica que o milagre estava ligado à faculdade de falar. Sem dúvida, a intervenção miraculosa do Pentecostes se deu no fato de que aqueles simples galileus podiam então falar idiomas que até então eram desconhecidos por eles. A finalidade exclusiva era pregar o Evangelho. Ellen G. White comenta:

“‘E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu’ (At 2:5). Durante a dispersão os judeus tinham sido espalhados por quase todas as partes do mundo habitado, e em seu exílio tinham aprendido a falar várias línguas. Muitos desses judeus estavam nessa ocasião em Jerusalém. […] Cada língua conhecida estava por eles representada. Essa diversidade de línguas teria sido um grande empecilho à proclamação do evangelho. Portanto, de maneira miraculosa, Deus supriu a deficiência dos apóstolos. O Espírito Santo fez por eles o que não teriam podido fazer por si mesmos em toda uma existência. Então eles podiam proclamar as verdades do evangelho em toda parte, falando com perfeição a língua daqueles por quem trabalhavam.”¹

2. A natureza das línguas

Que as línguas faladas pelos apóstolos se tratavam de idiomas conhecidos é a conclusão mais lógica e pertinente do próprio vocábulo grego empregado por Lucas para expressar a reação da multidão ao ouvir os discípulos: “E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?” (v. 8). A palavra grega traduzida por “língua” é dialektos, que significa o idioma de uma nação ou região, daí a origem da palavra “dialeto”. Refere-se apenas a uma língua humana, com vocabulário, gramática, sintaxe, etc. Não deve haver dúvidas de que os apóstolos falaram os idiomas estrangeiros das nações ali representadas.

Tentativas de equiparar o dom de línguas de Atos 2 aos fenômenos carismáticos modernos não condizem com a caracterização bíblica do dom. Enquanto o dom de línguas bíblico é tipificado pela inteligibilidade (1Co 14:9-11) e pela edificação da igreja (1Co 14:12) não é isso o que acontece hoje nas manifestações de glossolalia em alguns círculos cristãos, onde pessoas entram em estado de transe e pronunciam sons sem sentido, incompreensíveis a elas mesmas e aos outros participantes.

É conhecido o fato de que línguas extáticas eram amplamente comuns e praticadas em cultos pagãos da antiguidade, como relatado por Heródoto e por Virgílio.² Análises realizadas por linguistas têm destacado a grande similaridade entre as línguas extáticas nos movimentos pentecostais e aquelas praticadas em rituais pagãos; ou seja, se trata do mesmo fenômeno. Uma boa evidência disto é o estudo da Dra. Felicitas Goodman, uma antropóloga e linguista que, depois de realizar estudos in loco de várias comunidades pentecostais de fala inglesa e espanhola nos Estados Unidos e no México e de comparar gravações de aúdios de rituais não-cristãos da África, Bornéu, Indonésia e Japão, publicou seus resultados em 1972 em uma extensa monografia entitulada: Speaking in Tongues: A Cross-Cultural Study in Glossolalia. (University of Chicago Press, 1972) [Falando em Línguas: Um Estudo Transcultural em Glossolalia]. Goodman afirma que “quando todos os aspectos da glossolalia são levados em consideração, isto é, a estrutura segmentar (como sons, sílabas, frases) e outros elementos como ritmo, sotaque e especialmente a entonação geral, a associação entre transe e glossolalia é então aceita por muitos pesquisadores como uma suposição correta.”³

III. O sermão de Pedro (At 2:14-36) 

O sermão de Pedro após a manifestação do dom de línguas foi o primeiro dos “discursos evangelísticos” do livro de Atos e é muito significativo, pois representa o “Kerygma primitivo” (primeira proclamação) da igreja, ou seja, o conteúdo da pregação inicial cristã que geralmente consistia em textos das Escrituras relacionando o Messias a Jesus, com ênfase em Sua morte e ressureição, bem como com um chamado ao arrependimento. A mensagem de Pedro enfatizou dois aspectos principais: (1) A profecia de Joel, e  (2) a exaltação de Jesus.

1. A profecia de Joel

Para Pedro, estava claro que, o que havia acabado de acontecer era o cumprimento profético de Joel 2. A profecia de Joel foi originalmente concebida após uma praga de gafanhotos ter devastado a terra de Israel e resultado numa fome severa. Joel conclamou as pessoas ao arrependimento, prometendo a restauração da terra e prevendo a chegada do Dia do Senhor, que seria o alvorecer da era messiânica, quando o Espírito seria derramado sobre toda carne. Ao interpretar o evento do Pentecostes à luz dessa profecia, Pedro enfatizou a relevância histórica do momento. A profecia de Joel havia acabado de ser cumprida. O Espírito havia finalmente sido disponibilizado completamente e o ato final do grande drama da salvação havia começado. O corolário desse fato é que o Espírito já veio. Ele já foi outorgado por Deus ao Seu povo. O que falta é nos apropriarmos completamente do dom que já está disponível (cf. Ef 5:18) desde aquele momento.

2. A exaltação de Jesus

Após ter destacado o significado profético do Pentecostes, Pedro dirigiu sua atenção para os acontecimentos então recentes da vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus. No entanto, foi a ressurreição que recebeu maior ênfase, pois representou o elemento decisivo na história do evangelho, a evidência final de que Jesus não era um homem comum. Por ser o Messias (v. 23), Ele não poderia ser detido pela morte e, por haver sido ressuscitado (v. 32), foi exaltado por Deus à Sua destra, tornando assim possível a vinda do Espírito Santo. A questão é que a vinda do Espírito era condicional à vitória de Jesus na cruz (Jo 17:4-5) e Sua subsequente exaltação no Céu (Jo 7:39). Pela cruz, Deus recuperou o governo moral do Universo e o direito de reclamar a humanidade de volta para Si. A exaltação de Jesus foi o momento supremo em que isso foi reconhecido não apenas por Deus, mas também pelos anjos e todos os demais seres criados (Ap 5:8-14; cf. Fp 2: 8-9; Hb 2:9). O Pentecostes foi o resultado de tudo isso. Era hora de atacar o reino de Satanás e resgatar o ser humano de volta para Deus.

IV. O primeiro batismo (At 2:37-41)

A resposta ao sermão de Pedro não poderia ter sido mais positiva. As palavras inspiradas do apóstolo de fato “perfuraram [katenyg?san] o coração” dos ouvintes (v. 37), que apenas queriam saber o que fazer depois de tão profunda exposição acerca dos efeitos da morte e ressureição de Jesus. Pedro, então, destacou os quatro principais aspectos da experiência da conversão: (1) arrependimento, (2) batismo, (3) perdão de pecados e (4) recebimento do dom do Espírito (v. 38). O número expressivo de batismos naquele dia, quase três mil, revela a forte atuação do Espírito no coração daquelas pessoas. O Pentecostes foi a primeiro assalto ao reino de Satanás depois da cruz. Cada um de nós tem hoje o privilégio de testemunhar de Jesus, ampliando esse assalto e trazendo mais e mais cativos do pecado para o reino do nosso grande Deus.

Conclusão

Pontos a ser enfatizados em classe:
– O cumprimento da promessa do derramamento do Espírito Santo.
– O propósito do dom de línguas.
– A natureza das línguas faladas.
– Vida, morte e ressurreição de Jesus.
– A exaltação de Jesus como prerrogativa para a vinda do Espírito Santo.
– Nossa participação individual na obra de resgate iniciada pelos apóstolos no Pentecostes.

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¹ Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 39-40.
² L. Carlyle May, (1956), ‘A Survey of Glossolalia and Related Phenomen in Non?Christian Religions’ in American Antrophology, p. 75.
³ Felicitas Goodman (1972), Speaking in Tongues: A Cross-Cultural Study in Glossolalia, 23.

Autor do comentário:

Wilson Paroschi ensinou na Faculdade de Teologia do Unasp, Engenheiro Coelho, por mais de trinta anos. Desde janeiro deste ano, é professor de Novo Testamento na Southern Adventist University, em Collegedale, Tennessee, Estados Unidos. Ele é PhD em Novo Testamento pela Andrews University (2004) e realizou estudos de pós-doutorado na Universidade de Heidelberg, na Alemanha (2011).