LIÇÃO DA ESCOLA SABATINA - QUARTO TRIMESTRE DE 2019

Lição 2: Neemias

Semana: 5 a 11 de outubro

Comentário auxiliar elaborado por Sikberto Renaldo Marks, professor titular, sênior, no curso de Administração de Empresas da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ (Ijuí – RS)

Este comentário complementa o estudo da lição original

www.cristoembrevevira.com – marks@unijui.edu.br – Fone/fax: (55) 3332.4868

Ijuí – Rio Grande do Sul, Brasil

Verso para memorizar: “Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o DEUS dos Céus. E disse: ah! SENHOR, Deus dos Céus, DEUS grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que Te amam e guardam os Teus mandamentos! (Nee 1:4, 5).

Introdução de sábado à tarde

 Uns 152 anos antes, quando o Rei Nabucodonosor destruiu Jerusalém, ele derrubou os muros e queimou os portões da cidade, até que chegou Neemias. Os israelitas não construíram logo os muros quando voltaram de Babilônia.

Esdras e Neemias eram judeus de muito prestígio em Susã (Esd 7:1-6; Nee 1:11), na Pérsia, de onde saíram para a reforma social e religiosa em Jerusalém. Neste tempo quem governava a Babilônia, agora sob domínio persa, era o rei Artaxerxes I (464 – 424 a.C.).

Neemias era israelita que veio da cidade de Susã, nasceu ali, onde moravam Mordecai e Ester. Neemias trabalhou no palácio do rei, de modo que pode ter sido amigo de Mordecai e da Rainha Ester. Ester casou-se com Xerxes, rei anterior a Artaxerxes I que emitiu o terceiro decreto para Esdras voltar e que mais tarde enviou Neemias por meio de cartas. Mas a Bíblia não diz que Neemias trabalhou para o marido de Ester, o Rei Assuero. O certo é que ele trabalhou para o rei seguinte, Artaxerxes I.

Lembre-se de que Artaxerxes I foi o bom rei que deu a Esdras todo aquele dinheiro para levar de volta a Jerusalém, para arrumar o templo de Jeová. Mas Esdras não reconstruiu os muros da cidade. Ele tratou do templo e seu funcionamento, das leis do país e da situação espiritual. Como estava só, o enorme trabalho era demais para ele.

Foi 13 anos depois de Artaxerxes I ter dado a Esdras dinheiro para arrumar o templo que Neemias, então chefe dos copeiros desse Rei, entrou em cena. Tinha de servir vinho ao rei e ver que ninguém o envenenava. Era um trabalho muito importante.

Um dia o irmão de Neemias, Hanani, e outros homens da terra de Israel foram visitar Neemias. Contaram-lhe que os israelitas estavam tendo dificuldades e que os muros de Jerusalém ainda estavam em ruínasNeemias ficou muito triste e orou a Jeová sobre issoNum determinado dia, quatro meses depois, o rei notou que Neemias estava triste e perguntou: ‘Por que está tão triste?’ Neemias contou-lhe que era porque Jerusalém estava em péssimas condições e os muros em ruínas. ‘O que está querendo?’ perguntou o rei.

‘Deixe-me ir a Jerusalém’, disse Neemias, ‘para reconstruir os muros’. O Rei Artaxerxes I foi bondoso. Disse que Neemias podia ir, e ajudou-o a obter madeira para a construção. Logo depois que Neemias chegou a Jerusalém e que inspecionou a situação, ele falou ao povo sobre os seus planos. Eles gostaram da ideia e disseram: ‘Vamos começar a construir.’ Enfim, chegou um empreendedor!

Quando os inimigos viram os muros subir, disseram: ‘Vamos matá-los e parar a construção.’ Mas Neemias soube disso, e deu aos trabalhadores espadas e lanças. E disse: ‘Não tenham medo dos inimigos. Lutem por seus irmãos, seus filhos, suas esposas e suas casas.’ O povo foi valente. Mantiveram as armas prontas dia e noite, e continuaram construindo. Assim, em apenas 52 dias, terminaram os muros. Então, o povo sentiu-se seguro na cidade. Neemias e Esdras ensinaram ao povo a lei de Deus e o povo ficou feliz. Baseado nesse link.

Para fins didáticos, podemos dividir os livros de Esdras-Neemias em dois momentos distintos da repatriação dos judeus após o exílio:

  • O retorno dos exilados com Zorobabel e a reconstrução do templo entre 538-516 a.C. (Esd 1-6).
  • Reorganização religiosa com Esdras e a reorganização social e conclusão da restauração dos muros com Neemias entre 458 e 420 a.C. (Esd 7 – Nee 13).

O conteúdo do livro de Neemias pode ser resumido da seguinte maneira:

  1. O retorno dos judeus do exílio babilônico para Jerusalém com a restauração do altar e do templo.
  2. A chegada de Esdras (457 a.C.) e a reforma religiosa baseada na lei de Moisés (provavelmente Deuteronômio).
  3. A chegada de Neemias (444 a.C.) e a reforma social e econômica e a reconstrução dos muros de Jerusalém.

Os dois livros, Esdras e Neemias cobrem aproximadamente 100 anos de história, de 538 a.C. até 433 a.C. As narrativas começam pelo decreto de Ciro para a reconstrução de Jerusalém (Esd 1:1-4) até as reformas efetivadas no segundo mandato de Neemias como governador, de acordo com as ordens persas (Nee 13:6-30).

  1. Primeiro dia: Neemias recebe más notícias

Quem era Neemias? Seu nome significa ‘Javé consola, conforta’. O pai foi Hacalias (Nee 1.1). Nasceu por volta de 480 a.C., em Susã (antiga capital de Elam), Pérsia, portanto era de nacionalidade israelita, mas nascido na Pérsia. Sua ocupação: copeiro de rei (maxeqeh, um cargo de confiança do rei) (Nee 1.11; Gen 40.21).

Esse homem recebeu notícias preocupantes de Jerusalém, da parte de Hanani, possivelmente irmão carnal de Neemias. Em dezembro de 446 a.C., Neemias recebeu notícias de Jerusalém (Nee 1.2-4). “Hanani, um dos meus irmãos, veio de Judá com alguns outros homens, e eu lhes perguntei acerca dos judeus que restaram, os sobreviventes do cativeiro, e também sobre Jerusalém. E eles me responderam: “Aqueles que sobreviveram ao cativeiro e estão lá na província passam por grande sofrimento e humilhação. O muro de Jerusalém foi derrubado (possivelmente já haviam feito alguma coisa de reconstrução, mas os samaritanos queimaram as portas de madeira e derrubaram o que haviam feito), e suas portas foram destruídas pelo fogo”” (Nee 1:2,3).

Desde o exílio de Sedecias (587 a.C.), Jerusalém não abrigava o governo e, consequentemente, não mais possuía força empreendedora, poder político e organizacional. Essa situação levou ao caos, pois não havia estrutura administrativa que funcionasse. Esdras fez um bom trabalho, mas foi insuficiente, ele era um acadêmico, um doutor da lei, mas não um empreendedor; a tarefa era gigantesca, o povo seguia vivendo de modo diferente das orientações de DEUS. Esdras precisava de mais um líder forte para a tarefa, esse era Neemias. O profeta Malaquias também trabalhou naqueles dias de Esdras e Neemias, veio para recordar o povo das verdadeiras prioridades.

Havia injustiça e exploração entre os próprios judeus (Ne 5.1-13), os mais ricos contra os pobres, explorando-osCrescia a desigualdade entre as famílias; aumentava o desejo de lucro pessoal; a volúpia do lucro contaminava até os sacerdotes, logo, a parte espiritual estava depreciada. O cenário de Jerusalém era desolador: miséria, humilhação, muralhas em ruínas, portas incendiadas, portanto, insegurança num tempo cheio de violência. Como não chegaram a reconstruir o muro por completo e como ele era construído apenas de pedras sobrepostas umas às outras, sem cimento, ficava fácil derrubar. Foi o que fizeram os samaritanos. Depois de concluído, o muro alto, o peso das pedras de cima impossibilitava extrair alguma debaixo. Aí sim, o muro se tornava em proteção, uma fortaleza. O relato a Neemias foi assim: “Os que não foram exilados… estão em grande miséria e humilhação; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas queimadas a fogo” (Nee 1.3). Os samaritanos fizeram grandes estragos depois da destruição pelos babilônios.

Entre o povo, havia falta de identidade de fé, pois houve a assimilação de outras práticas religiosas de povos vizinhos; dificuldades com os casamentos mistos; alianças corruptas por interesses econômicos; radicalismos na prática religiosa com exigência (obrigação, não liberdade) da guarda do sábado, exigência quanto a prática do jejum, obrigatoriedade quanto ao dízimo por parte dos pobres e miseráveis, e que estava também corrompido por maus sacerdotes.

Atenção: nós, adventistas, estamos perdendo a nossa identidade. Isso inicia não apenas ao nível dos membros, mas principalmente ao nível dos pastores. Ouça um importantíssimo sermão sobre isso aqui, são 45 minutos muito bem aproveitados, pregado pelo respeitado pastor adventista Adolfo Suárez. Resumindo, ele trata de liturgias e pregações pós-modernas que estão acontecendo em algumas igrejas, pastores propagando ideias seculares e humanistas, achando que estão evangelizando. Quero só destacar que esse pastor falava para um auditório de pastores e eu me sentiria muito mal se estivesse ali. Se assistirem descobrirão facilmente a razão.

Ao ouvir essa notícia, Neemias sentou, chorou, ficou de luto vários dias, jejuou e orou a Deus (Ne 1.4).

  • Segunda: A oração de Neemias

Ouvindo essas noticias ruins Neemias estacou, assentou-se, ficou sem ação, chorando durante alguns dias. A princípio não sabia o que fazer, depois se deu conta que era ele quem deveria agir em Jerusalém. Neemias orou e jejuou, devido à imensa tristeza que sentiu pela situação dos que ficaram na terra que DEUS lhes dera e não foram levados ao cativeiro. “As coisas não estão bem; o muro de Jerusalém foi derrubado; as portas mantêm-se queimadas. Ao ouvir estas palavras, sentei-me e chorei; recusei comer durante vários dias e passei muito tempo a orar ao Deus dos Céus” (Nee. 1:3, 4).

“Ó Senhor, Deus dos Céus!”, clamei. “Ó grande e tremendo Deus que guardas a aliança, e que és bom e misericordioso para com os que Te amam e obedecem! Ouve a minha oração! Escuta atentamente o que tenho para Te dizer! Vê como oro noite e dia pelo Teu povo de Israel; confesso que pecámos contra Ti! Sim, eu e o meu povo cometemos o grave pecado de não obedecer aos mandamentos que nos deste através do Teu servo Moisés.  Lembra-Te, peço-Te, daquilo que disseste a Moisés: ‘Se pecarem, espalhar-vos-ei entre as nações. Mas se se voltarem para Mim e obedecerem às Minhas leis, ainda que se encontrem exilados nos mais longínquos pontos da Terra, farei com que voltem a Jerusalém; pois Jerusalém é o local que escolhi para que o Meu nome fosse honrado.’ Somos Teus servos, o povo que resgataste pelo Teu grande poder. Senhor, peço-Te que ouças a minha oração! Atenta para as orações dos que têm prazer em Te honrar. Ajuda-me, agora, que vou pedir ao rei um grande favor; faz com que o seu coração se torne benévolo para comigo” (Nee. 1:5 a 11, negrito acrescentado).

Neemias, perplexo e estupefato, suplicou que DEUS o ouvisse. Então confessou os pecados, incluindo-se entre os pecadores (assim já, bem antes, fez Daniel orando pelo retorno dos judeus à Jerusalém). Daí Neemias apelou para que DEUS Se lembrasse de Suas promessas: que Ele dispersaria o povo caso O desobedecessem, mas que os reuniria outra vez, caso se voltassem a Ele. Ele confirmou que DEUS já havia resgatado Seu povo antes. Então, pedindo outra vez que DEUS o ouvisse, suplicou que concedesse prosperidade e misericórdia ao povo em Jerusalém. Isso está em Neemias 1:5 a 11.

Neemias orou a DEUS com todo respeito e devoção. E atentemos bem: assim como a oração de um único ser humano, Daniel, levou DEUS a agir enviando-lhe uma grande profecia no tempo, agora, outra vez, a oração de Neemias, só ele, levou DEUS a agir para que esse homem resolvesse todos aqueles terríveis problemas em JerusalémO poder de DEUS não depende de muitos, quer por um ou por muitos, DEUS pode dar a vitória, como disse Jonatas a seu escudeiro, ao enfrentar os filisteus.

  • Terça: Neemias se manifesta

Após a oração, Neemias se refez e voltou a trabalhar para o rei, mas a sua fisionomia estava como a de um doente. Ele estava triste e abatido. Já se passavam quatro meses e Neemias tinha receio de falar com o rei, até que, num certo dia quando Neemias estava bem abatido, o próprio rei tomou a iniciativa, por causa da fisionomia do copeiro. Parecia que DEUS não faria nada, mas na realidade era DEUS conduzindo as coisas, era Neemias que estava com receio de falar com o rei. Nós sempre devemos ter todos os cuidados para não estragar as situações que DEUS está dirigindo, mas acima de nós DEUS conduz para que saibamos ter esses cuidados. O rei era bem íntimo de Neemias, pois ele era copeiro. Os copeiros eram homens espertos, inteligentes, confiáveis e sempre mais do que copeiros, geralmente também eram confidentes, conselheiros ou ocupavam outros cargos. Eram os de maior confiança do rei, pois a vida do monarca dependia da fidelidade do copeiro. Alguns copeiros eram também ministros. Não ficavam apenas alcançando vinho ao rei depois de eles mesmos tomarem um pouco. Neemias, que era o chefe dos copeiros, também gozava de grande prestígio junto ao rei Artaxerxes I.

Em março/abril de 444 (alguns autores dizem ser 445) a.C., diante do rei Artaxerxes, pela indagação do rei, que ficou preocupado com a fisionomia doentia de Neemias, este, tomado de sobressalto, sem esperar a oportunidade naquele momento, se declara profundamente triste com a situação em Jerusalém (Nee 2.1-3), cidade de seus antepassados. Pela sua fisionomia o rei pensava que Neemias iria precisar de algum tratamento médico, e ele providenciaria logo, mas a causa era bem outra. Neemias solicita ao rei enviar-lhe a Jerusalém, em missão (Nee 2.4-5), para consertar tudo o que estava destruído, ele era um empreendedor. Artaxerxes I, longímano (ele tinha mãos compridas) assumiu o trono persa em 465 a.C. após o assassinato de Xerxes I e governaria até 424 a.C. Ele ouviu Neemias com boa vontade, mais de uma década após seu decreto de reconstrução dos muros. O rei não se irritou porque o decreto ainda não dera um resultado definitivo, enviou a Jerusalém mais um reforço, Neemias e um bocado de pessoas.

O rei questiona sobre o período da ausência de Neemias. O rei permitiu a viagem de Neemias com todo o apoio logístico (Nee 2.6-8). Com o apoio do rei, Neemias empreendeu duas viagens, em missão a Jerusalém: Primeira viagem, em 444 a.C. Segunda viagem, em 432 a.C.

  • Quarta: Neemias é enviado

Após receber as informações vindas de Jerusalém, através de Hanani (Nee 1.2), em 444 a.C., Neemias ficou muito abalado, como já vimos. Vendo-o triste, o rei Artaxerxes I achou por bem enviá-lo a Jerusalém como governador, autorizando-o a reconstruir as muralhas, destruídas pelos babilônios, em 587 a.C. (Ne 1.1-2.8). Então alguns anos após o terceiro decreto, que foi do próprio Artaxerxes I, ele enviou Neemias, não mais por meio de decreto, mas por meio de cartas que estavam no contexto de seu decreto, o que ele havia emitido em 457 a.C. Neemias foi duas vezes a Jerusalém. Lá ele trabalhou em perfeita harmonia com Esdras, os dois conseguiram fazer um bom trabalho. Havia enormes desafios a superar, e eles conseguiram resolver tudo.

Mas, apareceram inimigos. Quando Sambalate soube que estávamos reconstruindo o muro, ficou furioso. Ridicularizou dos judeus e, na presença de seus compatriotas e dos poderosos de Samaria, disse: “O que aqueles frágeis judeus estão fazendo? Será que vão restaurar o seu muro? Irão oferecer sacrifícios? Irão terminar a obra num só dia? Será que vão conseguir ressuscitar pedras de construção daqueles montes de entulho e de pedras queimadas?”

Tobias, o amonita, que estava ao seu lado, completou: “Pois que construam! Basta que uma raposa suba lá, para que esse muro de pedras desabe!” Esse aí achava que as pedras se haviam fragilizado pelo fogo e que logo tudo cairia por conta própria.

E havia inimigos até mesmo entre os judeus. Perceba que os inimigos de fora combatem, e os inimigos de dentro introduzem maus costumes, aviltam, paganizam, vulgarizam. Há isso em nossa igreja hoje?

Os judeus ricos exploravam os próprios irmãos e irmãs, oferecendo-lhes empréstimos e tomando deles suas terras e seus filhos como garantia (Levíticos 25:39-40). Crianças judias tinham de escolher entre a fome e a servidão! A lei permitia que os judeus emprestassem dinheiro uns aos outros, mas não deveriam cobrar juros como faziam os agiotas (Deuteronômio 23:19-20). Antes, deveriam tratar uns aos outros com amor, até mesmo ao tomar algo como garantia (Deuteronômio 24:10-13; Êx 22:25-27) ou tornar um de seus compatriotas um servo (Levíticos 25:35-46).

Em relação à situação dos fatores políticos e sociais, Alfredo dos Santos faz um comentário muito acertado: “As violações econômicas de que os camponeses se queixavam estar sofrendo não podem ser vistas somente do ponto de vista da ameaça à sobrevivência física, embora esse fator seja de fundamental importância. Essas violações devem ser encaradas também do ponto de vista da destituição da identidade do povo judeu, uma vez que os opressores não apenas impediam a boa sobrevivência material de seus compatriotas, mas também ameaçavam a sobrevivência do grupo ao agir em desconformidade com a tradição das relações sociais: agir sem solidariedade e violando a posse da terra que pertencia à família extensa.

A primeira queixa referia-se a uma grande quantidade de famílias que estavam passando fome (Nee. 5:2). As possíveis causas talvez fossem a seca e falta de produtividade na lavoura, porque a terra não fora cultivada de forma a suprir a necessidade das centenas de pessoas que voltaram para a cidade, por ocasião da restauração dos muros de Jerusalém. A ordem da cidade e o cotidiano daquelas pessoas ainda não estavam em sua normalidade.

A segunda queixa estava relacionada com aquelas famílias que tinham propriedades, mas que precisavam hipotecá-las para não morrer de fome (Nee. 5:3). As propriedades e os bens eram os pilares de sobrevivência e identidade das famílias e clãs. Possuir um “pedaço de chão” significava muito, tendo em vista que a herança da terra foi uma promessa de Deus. Morar numa terra dada por Deus era um lembrete contínuo do ato de resgate assinalado pelo êxodo do Egito. Era o lembrete do quão Deus era bom e misericordioso.

A terceira queixa vinha da parte daqueles que eram obrigados a tomar dinheiro emprestado para pagar impostos ao rei Artaxerxes (Nee. 5:4). Isso em si já era um fardo difícil para o povo carregar, ainda mais porque eles estavam numa fase de restabelecimento político. Os recursos não eram tão abundantes. E, para piorar a situação, os judeus abastados que emprestavam o dinheiro acabavam recebendo os filhos e filhas dos devedores como pagamento da dívida (v. 5). Não poderia haver situação mais caótica do que essa para Neemias. Além da fome e dos impostos, judeus estavam escravizando judeus! A ordem de Deus era clara: “Não oprimais ao vosso próximo; cada um, porém, tema a seu Deus” (Levíticos 25:17; cf. vv. 35-40).”

Esse foi o diagnóstico da situação. Foi o que Neemias encontrou. Esdras, sozinho, não estava conseguindo enfrentar tantos desafios, mas a dupla, Neemias, mais gestor e Esdras, sacerdote, enfrentaram todos os desafios e resolveram. Como são importantes os líderes fiéis a DEUS, mesmo se forem somente um ou dois! Em suma, a fome era o problema maior. E, atreladas a ela, estavam a penhora dos bens para pagar impostos e a escravidão. Neemias precisava fazer alguma coisa! Com Esdras, eles fizeram o que tinha que ser feito. Mas estudemos as ações de Neemias amanhã.

  • Quinta: Neemias se prepara para sua tarefa

Diante da situação como estudamos ontem, Neemias precisava planejar as suas ações. E ele, sendo um gestor experiente do maior império daqueles dias, sabia como agir. Estudemos as suas ações por partes.

I. Primeiro empreendimento de Neemias (Nee 1-4 e 6).

A. Neemias fez uma inspeção secreta dos muros de Jerusalém (Nee 2.9-6).

B. Após a vistoria, Neemias decidiu reconstruí-los (Nee 2.17-20). Essa decisão, provocou uma forte oposição de Sambalá (um político influente de Samaria) e Tobias (um político influente entre os amonitas). Ou seja, já havia problemas para resolver em Jerusalém (muros e povo infiel), agora surgem novos problemas de inimigos externos.

C. Apesar dessa oposição, os muros de Jerusalém foram reconstruídos por um grupo de judeus, ligados à liderança de Neemias (Nee 3-4). Fizeram isso em 52 dias, sinal de que grande parte do muro já estava em pé. E Neemias, um grande empreendedor, os fez trabalhar ao mesmo tempo em todas as frentes. Até havia gente fabricando os portões em separado para recolocar.

II. Segundo empreendimento de Neemias (Ne 5.1-13).

A. Legislou sobre os empréstimos:

Diante da queixa de mulheres, cujos maridos estavam sendo explorados pelos próprios judeus, ricos e abastados (Nee 5. 1-6), Neemias empreendeu uma ampla reforma socioeconômica em Judá. Esses judeus emprestavam a juros de 60% a.a., e penhoravam os filhos dos trabalhadores para a escravidão. A Neemias condenou os que exploravam os trabalhadores do campo, decidindo que: (1) o penhor era por somente 6 anos, seja de pessoas ou terras; (2) toda dívida deveria ser perdoada no sétimo ano (Nee 10.32).

B. Legislou sobre causas socio-religiosas:

A destruição de Jerusalém, o exílio forçado da elite do povo para a Babilônia e a diáspora de milhares de famílias judias, especialmente para o Egito, deixaram vazia a região de Judá. A população de Judá diminuiu sensivelmente, enquanto a dos estrangeiros aumentou, devido às imigrações. Por várias décadas, os judeus que ficaram em Judá não tiveram liderança política e religiosa.

Diante disso, Neemias procurou disciplinar o povo, preparando-o para enfrentar os desafios do novo tempo.

(1) Diante dos casamentos mistos (judeus com estrangeiras e vice-versa), Neemias legislou: “… não daríamos as nossas filhas aos povos da terra, nem tomaríamos as filhas deles para os nossos filhos” (Nee 10.30).

Razões dessa medida:

Primeira: os/as filhos/as desaprendiam a língua hebraica, já que a mãe estrangeira não tinha competência para educá-los nos costumes israelitas (Nee 13.23-29).

Segunda: a mãe estrangeira conduziria os/as filhos/as ao afastamento da fé em DEUS, conforme aconteceu com Salomão (Nee 13.26).

Terceira: Neemias percebeu que a desintegração da linguagem provoca a desintegração da fé e do povo como nação.

(2) Em meio às atividades comerciais com a população estrangeira, Neemias legislou sobre a guarda do sábado:

“… trazendo os povos da terra no dia de sábado qualquer mercadoria e qualquer cereal para venderem, nada compraríamos deles no sábado, nem no dia santificado.” (Nee 10.31a+b).

Razão dessas medidas:

Primeira: promover a solidariedade entre os irmãos e irmãs da comunidade judaica.

Segunda: contrariar e eliminar as tendências desintegradoras na comunidade.

Terceira: reforçar as antigas práticas e costumes tribais e religiosos.

Quarta: redescobrir a identidade israelita em meio à adversidade.

(3) Diante do uso indisciplinado da terra, em vista da nova conjuntura social (conforme Nee 5.1-6), Neemias decidiu descansar a terra no 7º ano: “… que abriríamos mão da colheita do ano sétimo, e de qualquer cobrança” (Nee 10.31c).

Razão dessa medida:

Primeira: evitar o enriquecimento de umas famílias e o empobrecimento de outras.

Segunda: reafirmar o princípio básico – “a terra é Minha – diz DEUS” (Lev 25.23).

Terceira: reforçar a solidariedade na comunidade do povo bíblico.

Quarta: evitar o fantasma da desintegração da comunidade.

Nas reformas do período pós-exílio, feitas por Neemias, houve duas inquietudes importantes: Evitar um novo exílio e preservar a identidade étnica.

As medidas abaixo visaram proteger os judeus contra estas preocupações:

Cerimônia de renovação da aliança para garantir a posse da terra – Nee 9:38-10:27.

Restituir o ministério sacerdotal – Esd 10:18-44.

Recomeço dos rituais do templo e guarda do sábado – Nee 8:13-18; 13:15-22.

Estabelecimento da Lei de Moisés como padrão de vida comunitário – Nee 8:1-12.

Reformas sociais e econômicas fundamentadas na lei da aliança – Nee 11:1-2.

Pureza cerimonial da população de Jerusalém – Nee 10:28-39.

Divórcio e expulsão de estrangeiros dentre o povo – Esd 10:1-8; Ne. 9:1-5; 13:1-3.

Estas medidas, a longo prazo, remoldaram a sociedade israelita e definiram o que conhecemos como a sociedade judaica do Novo TestamentoO templo e o sacerdócio substituíram o Estado e o rei como instituições fundamentais para a ordem e identidade social, sendo a lei de Moisés a constituição reguladora da comunidade. Com o passar do tempo, estas medidas ocasionaram o exclusivismo judaico diante dos povos gentios, que eram vistos como moralmente impuros e corrompidos. Por outro lado, os judeus nunca mais conseguiram ser uma nação independente, a não ser por poucos períodos, mas de forma frágil, como no tempo dos Macabeus. (O texto de hoje foi baseado conforme aqui)

  • Resumo e aplicação – Sexta-feira, dia da preparação para o santo sábado:
  • Tema transversal

De tudo que Neemias fez, algumas coisas ficaram marcados na memória do povo bíblico como um testemunho da Boa Nova para a eternidade:

1. A reconstrução do muro de Jerusalém foi importante. Além de ser o responsável pelo estabelecimento da infraestrutura da cidade, Neemias também deu início ao processo de resgate da identidade do povo bíblico.

2. Neemias mostrou, na prática, como se enfrenta o desafio da reconstrução moral, social, econômica, política e religiosa de um povo angustiado, dividido e oprimido. Apesar da situação econômica da província de Judá ser caótica, ele não deixou de pagar o tributo devido à Pérsia.

3. Neemias valorizou sobremaneira os pobres e criticou a aristocracia da época. Ele ouviu e favoreceu as mulheres que acusaram os donos de propriedade, conforme Neemias 5.1-13. O apoio popular às suas medidas reflete a preservação de sua memória que foi transmitida e, posteriormente, transformada em um livro. É, também, certo que Neemias teve muito apoio de grupos da classe rica de Judá, bem como do governo Persa.

  • Aplicação contextual e problematização

Um povo sem uma boa liderança é um povo sem rumo, confuso, sujeito a fazer de tudo o que é errado. Pessoas, populações, muita gente, necessitam de orientação por parte de líderes bem intencionados, sábios, seguros pelo seu conhecimento e pela sua fidelidade a DEUS. Assim foi sempre com o povo de DEUS. Bons reis, povo obediente a DEUS; maus reis, povo rebelde e desencaminhado, vindo logo o sofrimento. Hoje é assim também com a igreja, tudo depende da fidelidade a DEUS por parte da liderança.

  • Informe profético de fatos recentes

“Cristianismo progressista – um outro evangelho

“A melhor maneira de destruir o evangelho é produzir um evangelho que não é o evangelho. O nome permanece, mas toda a essência é retirada.

“Joga-se algumas pitadas do cristianismo bíblico, usam-se palavras usuais do cristianismo histórico, faz-se ocasionalmente referências vagas às verdades cristãs, mas muda-se o restante. Tudo isso aliado a um discurso erudito, com palavras da moda como “justiça social” ou “combate às diferenças” e o que temos é um cristianismo que não é cristianismo.

“Estamos vivendo algo semelhante em nossos dias. São instituições, eventos, igrejas, líderes religiosos, que misturando um pouco de cristianismo dentro de uma sopa saturada de liberalismo teológico, ecumenismo, marxismo ou neomarxismo, procuram identificar-se com o verdadeiro evangelho.” Esse artigo vale ser lido. Ele enquadra o atual cristianismo liberal que engana milhões de pessoas. Desejando, encontre todo o artigo aqui.

Papa visita Moçambique com reconciliação e diálogo inter-religioso na agenda

Aumenta a expectativa em Moçambique, a pouco mais de 24 horas da chegada do Papa. Reconciliação e diálogo entre religiões marcam a agenda do Papa Francisco, num país que começa a ter episódios de violência com indícios de extremismo islâmico. Ouça o áudio aqui.

  • Comentário de Ellen G. White

“Neemias, o exilado hebreu, ocupava um cargo de influência e honra na corte persa. Como copeiro do rei, era admitido na presença real e, por virtude de sua intimidade, nobres capacidades e comprovada fidelidade, tornara-se conselheiro do monarca. Era um homem de elevados princípios, inflexível integridade e grande perspicácia.

“Naquela terra pagã, rodeado pelo esplendor e pompas reais, Neemias não se esqueceu do Deus de seus pais ou do povo a quem se haviam confiado os oráculos sagrados. A dignidade de sua posição não lhe roubava a piedade ou o amor por seus irmãos. … Não se envergonhava de seu relacionamento com eles e com a verdade. Sentia que devia honrar a verdade em todos os lugares. Não se desculpava por manter uma fé distinta daquela professada na corte persa. …

“Dias de particular aflição e prova tinham vindo à cidade escolhida. Mensageiros de Judá descreveram a Neemias a sua condição. O segundo templo havia sido erigido e porções da cidade reconstruídas, mas era impedida a sua prosperidade e o serviço do templo perturbado, e mantidas as pessoas em constante alarme pelo fato de que seus muros ainda se encontravam em ruínas e suas portas queimadas com fogo. A capital de Judá se tornava rapidamente um lugar desolado e os poucos moradores restantes estavam profundamente amargurados pelas provocações de seus idólatras agressores: “Onde está o vosso Deus?”” (O CRISTO Triunfante, MM 2002, 181).

  • Conclusão

“Os poucos fiéis que construíram sobre o verdadeiro fundamento (I Cor. 3:10 e 11), ficaram perplexos e entravados quando o entulho das falsas doutrinas obstruiu a obra. Como os edificadores sobre o muro de Jerusalém no tempo de Neemias, alguns se prontificaram a dizer: “Já desfaleceram as forças dos acarretadores, e o pó é muito e nós não podemos edificar o muro.” Nee. 4:10. Cansados da constante luta contra a perseguição, fraude, iniquidade e todos os outros obstáculos que Satanás pudera engendrar para deter-lhes o progresso, alguns que haviam sido fiéis edificadores, desanimaram; e por amor da paz e segurança de sua propriedade e vida, desviaram-se do verdadeiro fundamento. Outros, sem se intimidarem com a oposição de seus inimigos, intrepidamente declaravam: “Não os temais: lembrai-vos do Senhor grande e terrível” (Nee. 4:14); e prosseguiam com a obra, cada qual com a espada cingida ao lado (Efés. 1:17).

O mesmo espírito de ódio e oposição à verdade tem inspirado os inimigos de Deus em todos os tempos, e a mesma vigilância e fidelidade têm sido exigidas de Seus servos. As palavras de Cristo aos primeiros discípulos aplicam-se aos Seus seguidores até ao final do tempo: “E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai.” Mar. 13:37” (O Grande Conflito, 56 e 57).