LIÇÃO DA ESCOLA SABATINA - QUARTO TRIMESTRE DE 2019

Lição 2: 5 de outubro a 12 de Outubro

Neemias

O terceiro retorno

No comentário anterior, descrevemos brevemente as duas primeiras ocasiões em que judeus saíram de Babilônia com destino a Judá: uma na época do rei Ciro (ca. 539 a.C.), e outra na época do rei Artaxerxes I (457 a.C.). A lição dessa semana trata a respeito de uma terceira leva de judeus que decidiram voltar para seu país de origem, dessa vez no ano 444 a.C., nos dias do copeiro Neemias, o personagem principal do estudo desta semana. Quem sabe seja importante para o estudante da lição da Escola Sabatina visualizar o território para onde aqueles milhares de judeus estavam voltando. O mapa a seguir é de Judá, ou província de Yehud como a região era conhecida durante o período persa. Como se vê, era uma área bem menos expressiva do que o reino de Israel nos dias de Davi e Salomão. Judá nessa época tinha aproximadamente 50 km de leste (Jericó) a oeste (Gezer). No comentário anterior, mencionamos a pobreza dessa área na época de Esdras. É importante ressaltar que durante o período de Neemias a situação não era diferente. Aqueles que decidiram voltar para Judá tinham um recomeço difícil pela frente.

Quem era Neemias?

Somos informados pelo relato bíblico que Neemias era um copeiro na corte do rei Artaxerxes I, na importante cidade persa chamada Susã (1:1, 11; 2:1), no atual sul do Irã. Susã já era uma cidade bastante antiga na época de Neemias. Por volta do ano 3000 a.C., Susã funcionava como um importante centro comercial dos Elamitas, povo que vivia naquela região. Quando os persas se estabeleceram como soberanos no antigo oriente na segunda metade do 6º século a.C., Susã se tornou uma das quatro capitais do império. Assim como Neemias, tanto o profeta Daniel (8:2) como a rainha Ester (1:2) também moraram ali.

Extensão do império persa nos dias de Esdras e Neemias, desde a atual Índia até a Líbia. A seta no meio do mapa indica a localização da cidade de Susã.

Pedaço de uma das colunas do palácio do rei Dario I em Susã. Museu do Louvre, Paris.

O visitante que se aventurar a conhecer aquela que foi uma importante cidade do antigo oriente por milênios encontrará somente ruínas no local. Na foto, restos do palácio do rei Dario I, em Susã. Fonte: https://www.livius.org/pictures/iran/susa/susa-palace-of-darius-i-the-great/susa-palace-of-darius-room-with-inscriptions/)

O trabalho de um copeiro não deve ser considerado de pouca importância. Copeiros tinham acesso direto ao rei e eram responsáveis por provar a bebida que era servida para ele. O fato de Neemias ter assumido essa posição no império persa sugere que ele vinha de uma família influente entre os judeus. Além disso, é muito provável que Neemias também fosse um eunuco. Aqueles que serviam o rei diretamente e também tinham acesso ao seu harém eram eunucos. Essa parece ter sido uma prática comum tanto no império assírio, como na época dos persas. Ou seja, tanto Esdras como Neemias eram pessoas altamente influentes na administração do governo persa que Deus chamou para levar Seu povo de volta a Judá.

O rei assírio Assurnasirpal II (esquerda) e um eunuco-copeiro (direita). Repare no copo na mão do eunuco usado para servir mais bebida para o rei. Museu Metropolitano de Nova Iorque. Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/322611

Oração de Neemias

O livro de Neemias começa com as más notícias de Hanani para Neemias sobre os moradores de Judá. Eles estavam passando por um grande mal (heb. ra‘ah gedolah) e desgraça (heb. herppah). Os muros de Jerusalém também estavam destruídos e seus portões, queimados (1:4). Tais notícias causaram grande tristeza em Neemias, que chorou, jejuou, lamentou e orou por muitos dias. Como a lição de segunda feira apresentou, a oração de Neemias (1:5-11) tem uma bela organização de ideias. Mas muito mais importante que sua estrutura é o fato de que essa oração foi proferida pelos lábios de alguém que verdadeiramente se importava com seu povo e com sua cidade, mesmo que Neemias nunca tivesse ali pisado.

No capítulo seguinte, Neemias aparece servindo vinho para o rei (afinal, ele era um copeiro!) e interagindo com ele sobre o motivo de sua tristeza, a situação deplorável de Jerusalém. Quando o rei perguntou o que ele poderia fazer para ajudar, Neemias foi ousado o bastante para pedir não só permissão para liderar uma comitiva para reconstruir Jerusalém, mas também cartas de autorização para que ele coletasse materiais que seriam usados na restauração da cidade, e o rei assim o fez (2:4-8a). No entanto, Neemias foi enfático em destacar algo: isso tudo foi obtido graças à bondosa mão de Deus sobre ele (2:8b). Apenas lembrando, o rei Artaxerxes I era o homem mais poderoso do mundo nessa época. Seu império cobria um território de aproximadamente 5 milhões de km2 (ver mapa acima). Mas mesmo alguém tão poderoso como Artaxerxes ainda estava sob o controle do Deus de Neemias e foi através da intercessão desse homem que Deus começou a mudar a sorte de Jerusalém e dos seus habitantes.

Como anda a sua vida de oração? João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla no 4º século d.C., escreveu: “A oração extinguiu a violência do fogo, fechou a boca de leões, silenciou revoltosos, pôs fim a guerras, acalmou os elementos, expulsou demônios, rompeu as cadeias da morte, escancarou os portões do Céu, amenizou enfermidades, repeliu mentiras, salvou cidades da destruição, deteve o curso do sol e o avanço do relâmpago. A oração é uma poderosa armadura, um tesouro que nunca acaba, uma mina que nunca se esgota, um céu que nunca fica toldado de nuvens e nunca é turbado por tempestades. Ela é a raiz, a fonte, a mãe de mil bênçãos.”

Se a preocupação de Neemias com seu povo e sua cidade podem servir de alguma lição para nós hoje, eis algumas perguntas para nossa reflexão: Quando foi a última vez que oramos pela pregação do evangelho na nossa respectiva cidade? Pelos cristãos que estão sofrendo perseguição no Oriente Médio? Pelos recém conversos da minha igreja? Pelos missionários que nossa igreja tem espalhados pelo mundo? Será que nos causa profunda tristeza saber que em algumas partes do mundo aceitar a Cristo é um crime capital? Lembre-se da história de Neemias. Jamais subestime o poder de uma oração fervorosa!

Oposição a Neemias

De acordo com o capítulo 2, os planos de Neemias encontraram resistência. A Bíblia apresenta os nomes de Sambalate, o horonita, Tobias, servo amonita, e Gesem, o arábio (2:19), como opositores da comitiva de Neemias. Em escavações arqueológicas em 1963 em Wadi-ed-Daliyeh, em Israel, os arqueólogos Paul e Nancy Lapp descobriram diversos objetos, papiros e impressões de sinetes datados do 4º século a.C. Um desses objetos, uma impressão de um sinete, contém a inscrição “Pertencente a Yeshayahu, filho de Sambalate, governador de Samaria.” Com base no tipo de escrita, os pesquisadores sugeriram a data deste objeto por volta de 400 a.C. É bem provável que o Sambalate dessa inscrição seja o mesmo da história de Neemias.

Impressão do sinete de Yeshayahu, filho de Sambalate, descoberto em Wadi-ed-Daliyeh, Israel, nos anos 60.

Usando Jerusalém como ponto de referência, Sambalate residia ao norte, em Samaria, Tobias ao leste, em Amon, e Gesem ao sul, na Arábia. Literalmente, Neemias e sua comitiva enfrentaram oposição de quase todos os lados. Mas Neemias não era somente um homem de oração, mas também de ação. O restante do capítulo 2 narra com detalhes o que ele fez mesmo diante da oposição dos seus três adversários. Por estar certo que Deus estava com ele, Neemias seguia adiante com sua tarefa. Essa é uma excelente lição para nós. Diante das adversidades, e existem muitas ao nosso redor, o que fazemos? Como nos comportamos? A declaração a seguir de Ellen White demonstra qual deveria ser nossa atitude quando enfrentarmos dificuldades em nossa jornada:

“Alguns homens não têm firmeza de caráter. Assemelham-se a uma bola de cera e podem ser moldados em qualquer aspecto concebível. Eles não possuem forma nem consistência definitivas e são inúteis no mundo. Essa fraqueza, indecisão e ineficiência precisam ser vencidas. Existe no verdadeiro caráter cristão alguma coisa de indomável, que não pode ser moldada nem subjugada pelas circunstâncias adversas. Moralmente falando, os homens precisam ter espinha dorsal, uma integridade que não é vencida pela lisonja, nem pelo suborno ou terror.” 

Conheça o autor dos comentários: Luiz Gustavo Assis serviu como pastor distrital no Rio Grande do Sul por cinco anos e meio. Em 2013, continuou seus estudos acadêmicos nos Estados Unidos. Ele cursou um mestrado em arqueologia do Antigo Oriente e línguas semíticas pela Trinity Evangelical Divinity School (Deerfield, IL), e atualmente está no meio do seu programa doutoral em Antigo Testamento no Boston College (Newton, MA). É casado com Marina Garner Assis, que por sua vez faz seu doutorado em filosofia da religião na Boston University. O casal tem um filho, Isaac Garner Assis.

___

1- F. Charles Fensham, The Books of Ezra and Nehemiah (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1982), 157.

2- Citado em Leonard Ravenhill, Por que Tarda o Pleno Avivamento? (Belo Horizonte, MG: Editora Betânia, 1989), 112.

3- Mary Joan Winn Linn, Wadi Daliyeh I: The Wadi Daliyeh Seal Impressions. Discoveries in the Judean Desert 24 (Oxford: Claredon, 1997), 10.

4- Ellen White, Testemunhos para Igreja, v. 5 (Tatuí, SP: CPB, 2004), p. 280.