LIÇÃO DA ESCOLA SABATINA - SEGUNDO TRIMESTRE DE 2019

Lição 11: 8 a 14 de junho

Famílias de fé

Autor: Moisés Mattos

Editor: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br

Revisora: Josiéli Nóbrega

Introdução:

A lição desta semana trabalhou a questão da família em relação às mudanças impostas pela cultura. O que é cultura? Pode haver respostas diversas, mas em linhas gerais o termo significa o meio social em que fomos criados e vivemos. “Isto inclui nossa herança social e intelectual; nossa maneira de ver e perceber as coisas. Em um senso geral, a cultura resulta das lentes através das quais enxergamos o mundo e que nos fazem interpretar o mesmo mundo de maneiras diferentes” (Jack J. Blanco, Revelation/Inspiration, Church, and Culture; Journal of the Adventist Theological Society, 5/1, 1994, p. 107).

No decorrer da história, em diversas situações setores do cristianismo foram engolidos pela imposição da cultura da época. Só para citar um exemplo, a mudança do sábado para o domingo teve muita influência da cultura da época que rejeitou tudo o que tivesse conexão com os judeus, e o sábado era um desses elementos.

Voltando ao nosso tema, as famílias cristãs enfrentam desafios culturais o tempo todo. Às vezes as influências culturais podem estar de acordo com as nossas crenças e valores. Em outras ocasiões elas estão frontalmente em oposição ao cristianismo. Então, considerando que hoje as coisas se deslocam tectonicamente (de modo imperceptível), nosso desafio é saber enfrentar as tendências ao mesmo tempo em que as filtramos à luz de algo sólido e permanente: a Palavra de Deus. Assim, os nossos princípios não serão abalados.

I – Breve análise da relação entre cultura e fé

1. Desafios do mundo bíblico

Nos tempos bíblicos, a cultura de cada local trazia em si desafios à fé de uma pessoa ou família temente a Deus. Esses desafios podem ser vistos na:

A) Adoração

Os povos ao redor de Israel tinham seus próprios deuses e seu jeito de adorar. O patriarca Jacó e sua família foram afetados pela cultura local em que ídolos eram objetos usados não só na adoração, mas também eram itens que compunham uma herança (Gn 35:1-4). Uma rápida olhada em 1 Reis 18 mostra a grande diferença no estilo de adoração entre os profetas de Baal e Elias, o representante do Deus verdadeiro.

B) Casamento

O próprio Abraão foi afetado pela cultura poligâmica de seu tempo quando, “dando um jeitinho” teve um filho com a serva Agar, já que Sara não podia lhe dar filhos (Gn 16:1-3); Salomão cedeu aos encantos de muitas mulheres com as quais Deus havia dito que os filhos de Israel não deviam se envolver (1Rs 11:1).

C) Estilo de vida

Na Bíblia, temos exemplos positivos e histórias negativas envolvendo o estilo de vida, especialmente a respeito da nossa maneira de comer, beber, vestir e adornar-se. Daniel e seus companheiros deram um bom testemunho quantos aos alimentos servidos pelo rei Nabucodonosor (que eram contrários às recomendações divinas) quando os rejeitaram (Dn 1:5-15). Por outro lado, temos maus exemplos de Jezabel, uma estrangeira que trouxe para o povo de Deus sua cultura de adornos e idolatria (2Rs 9:30); da família de Jacó (Gn 35:4), e outros.

2. Desafios da cultura atual

Apesar da evolução tecnológica, muitas tentações e ameaças à família permanecem as mesmas. Claro que outras dificuldades surgiram do pensamento atual. Algumas, entre tantas, podem ser listadas:

A) Ideologia de gênero

Nos últimos anos, temos uma parcela das pessoas advogando a tal ideologia de gênero. Uma definição simples dela foi apresentada pela socióloga Arlene Denise Bacarji. Ela escreveu que "Ideologia de Gênero é uma ‘ideologia’ que atende a interesses políticos e sexuais de determinados grupos, que ensina, nas escolas, para crianças, adolescentes e adultos, que o gênero (o sexo da pessoa) é algo construído pela sociedade e pela cultura, as quais eles acusam de patriarcal, machista e preconceituosa. Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, mas pode escolher o que quer ser. Pois comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero” (Arlene Denise Bacarji, Ideologia de Gênero, em https://formacao.cancaonova.com/atualidade/ideologiadegenero/a-ideologia-de-genero/acessado em 16/12/2018).

B) Sexo livre

O sexo foi criado por Deus para procriação e para o prazer do ser humano. Deve ser praticado dentro dos limites do casamento (Gn 1:28; 2:24). Contudo, nossa sociedade simplesmente o banalizou. Hoje, pais incentivam seus filhos a ter, dentro de suas casas, o sexo entre namorados sob o pretexto da segurança. Nessa sociedade, o sexo obedece a uma regra que diz o seguinte: No mundo adulto, a pessoa escolhe quando, onde, como e com quem fazer ou não sexo. Infelizmente, a realidade demonstra que, em nosso tempo, namorados vivem como casados e casados vivem como desconhecidos entre as quatro paredes de sua falta de compromisso e infelicidade.

C) Diversões

A lista de opções de diversões cresce a cada dia. Para o cristão há coisas próprias e impróprias. Escolher o que é certo e de acordo com a vontade de Deus pode ser um desafio para as famílias. Uma boa dica vem dos escritos de Ellen White, que procura fazer uma diferenciação entre recreação e diversão. Ela escreveu: "Há diferença entre recreação e diversão. A recreação, na verdadeira acepção do termo – recriação – tende a fortalecer e construir. Afastando-nos de nossos cuidados e ocupações usuais, proporciona descanso ao espírito e ao corpo, e assim nos habilita a voltar com novo vigor ao sério trabalho da vida. A diversão, por outro lado, é procurada com o fim de proporcionar prazer, e é muitas vezes levada ao excesso; absorve as energias que são necessárias para o trabalho útil, e dessa maneira se revela um estorvo ao verdadeiro êxito da vida” (Educação, p. 207).

D) Relativização dos valores cristãos

O pós-modernismo tem a tendência de defender uma pluralidade ideológica e cultural. Nossa época é de síntese. As pessoas querem ter posições, mas querem ao mesmo tempo concordar com tudo. A pessoa tem uma cultura tecnológica, de informática avançada, mas crê em florais, astrologia e numerologia. Não há convicções, mas conveniências. Seu credo é mais produto de ajustes de convivência do que de crença pessoal. Pode-se ter grande zelo pela ecologia e desprezo pelo ser humano. As crenças e posturas são casuais e produto das circunstâncias. O evangelho pode ser verdade, mas é verdade para uma pessoa e não para outra. Há tantas verdades quanto há pessoas. Pois, nesse contexto plural, a família pode dar seu testemunho tanto quanto os apóstolos o fizeram no mundo pluralizado do primeiro século da era cristã. Isso exige espírito de urgência e relevância.

E) Falha na transmissão da fé entre pais e filhos

Nesse contexto plural, fica difícil fazer a transmissão da fé cristã de pais para filhos, seja por falhas dos progenitores, seja por pressão da própria sociedade. Kinnaman relata uma pesquisa de 2011, feita pelo Grupo Barna com jovens americanos que deixaram a fé cristã. Nela, 59% dos jovens estavam abandonando ou haviam abandonado a igreja. Quase dois quintos (38%) disseram atravessar um período em que duvidavam seriamente de sua fé. Um terço (32%) descreveram um período em que sentiram rejeição pela fé dos pais (David Kinnaman, Geração Perdida, Editora Universidade da Família, São Paulo, SP, 2014, p. 23).

II – Como ser relevante sem perder a identidade

O maior desafio da família cristã é ser relevante para o mundo sem perder sua identidade, seus valores. Alguns conselhos podem ser de bom proveito nessa intrincada relação:

A) Testar práticas culturais sempre pela Palavra de Deus

Nem tudo que uma cultura apresenta é sempre bom ou sempre mau. Mas culturas determinam valores, e valores afetam comportamentos. Então precisa-se decidir tendo como amparo o texto bíblico e seus valores permanentes (Jo 17:17; 1Ts 5:21-22).

B) Respeitar a cultura dos outros

Nem todos temos a mesma origem. Dentro de uma mesma família existem pontos de vista diferentes e não necessariamente errados em si mesmos. Da igreja cristã primitiva aprendemos que o princípio da tolerância pode ser aplicado também dentro do contexto familiar (At 15:20, 28, 29).

C) Transmitir a fé para as novas gerações

Logo na formação de Israel a recomendação para se repassar as palavras de Deus foi clara para os pais e mães: "E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” (Dt 6:7).

Esse modo de ensinar deve ser uma conjugação entre falar e viver. Na minha percepção, os jovens e as crianças estão mais interessados na coerência com que seus pais vivem a religião do que no que eles dizem crer. Não se pode esqucer de que "a verdadeira fé não é algo genético, não é algo transmitido naturalmente de uma geração a outra. Cada pessoa precisa conhecer Cristo por si mesma. Há um limite no que os pais podem fazer. A igreja como um todo e os pais, em especial, precisam fazer tudo o que podem para criar um ambiente que desperte nos jovens o desejo de fazer essa escolha certa, mas, no fim, uma geração é salva ou perdida pela aceitação ou rejeição do evangelho, uma pessoa de cada vez” (Lição de quarta-feira).

Conclusão: Richard Niebuhr fala de 3 posições básicas nessa relação entre o cristianismo e a cultura: Cristo contra a cultura; Cristo na cultura; Cristo acima da cultura (H. Richard Neibuhr, Christ and Culture; Nova Iorque, Harper & Row, 1951).

Isso demonstra a dificuldade que temos ao lidar com essa questão. O cristão está envolvido com a cultura. Não se pode ignorar que estamos no mundo e participamos de sua cultura. Jesus disse: "Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17:15).

O grande problema não é o barco sobre a água; ele foi feito para isso. O grande problema é quando a água entra no barco. Falando em família, a maior dificuldade não é a cultura da qual ela faz parte, mas quando a parte ruim da cultura é assimilada e praticada. Muita gente faz como Ló em Sodoma. Vai se aclimatando aos poucos ao pecado. Deixa-se envolver gradativamente por ele. Aos poucos, o lixo midiático nos empurra valores anticristãos goela abaixo. O adultério dos casais e o desrespeito dos filhos para com os pais nas novelas se tornam comuns e aceitáveis para nós. Achamos interessante a apologia da violência. Ela se torna entretenimento, em vez de ser vista como pecado.

Oremos pelas nossas famílias!